Por quê??

Você já se perguntou porquê as pessoas têm filhos? Eu sempre me perguntei. Ainda mais depois da minha experiência como professora.
Durante esses três anos em que dou aula, esporadicamente, em uma ocasião ou outra, eu me faço essa pergunta com a mesma vontade que os cientistas têm de saber a origem do universo.
Eu não sou mãe mas, para mim, filhos são coisas tremendamente especiais. Pense no fato de que um ser humano carrega outro ser humano, dentro de si, por nove meses. E eu não dou o mérito só para as mulheres. Nós, sozinhas, não podemos gerar uma vida, os homens também dão a sua contribuição.
Acontece que, eu chego em sala de aula e vejo o descaso com que os pais (des)educam seus filhos. Eu recebo um monte de criaturas que vão com a farda mal cuidada, com o material incompleto, com os deveres sem fazer, crianças que não têm um bom aproveitamento porque os pais não se deram conta de que os filhos não enxergam direito e precisam usar óculos, crianças mal educadas, crianças carentes de atenção... Tanta coisa!
E os pais simplesmente jogam os filhos na escola, achando que é dever do professor fazer todo o trabalho que deveria ser feito por eles e que, na verdade, nem deveria ser considerado trabalho. Ter um filho deveria ser a coisa mais maravilhosa do mundo. O que a maioria das pessoas até diz que é, mas eu não vejo sinceridade nenhuma nisso, se vocês querem saber.
Quando eu dava aula em uma escola, aqui perto de casa, havia um casal de gêmeos na primeira série do ensino fundamental. A professora deles, da alfabetização, me pediu para que eu fizesse com que eles usassem os óculos, porque não enxergavam bem. E esse problema só foi descoberto porque a professora percebeu isso. Os pais dessas crianças passavam o dia fora e, quando chegavam em casa, não davam atenção para os filhos que, por sinal, eram duas crianças lindas.
Eu dava aula de Inglês. Os gêmeos dividiam um mesmo livro, do professor, com as respostas muito mal escondidas por pinceladas de corretivo. Não, isso não era por má condição financeira, eles tinham uma vida confortável. Era descaso mesmo.
Pessoas com um pouco mais de instrução e sensibilidade sabem que, gêmeos, devem ser tratados com cuidado porque, é necessário preservar a individualidade deles. Eles já começam dividindo o mesmo espaço no ventre da mãe e, por mais que se tente fugir, é quase impossível que eles não recebam comparações uma vez ou outra.
O meu trabalho com eles ainda era maior porque, eles não queriam dividir o livro. Agora eu me pergunto: como é que essas crianças iam responder os exercícios do livro? Alternando na hora de escrever as palavras? Como é que elas teriam um bom aproveitamento? E... O QUE É QUE AQUELES PAIS TINHAM NA CABEÇA???
Quando eu dava aula para a alfabetização foi que eu vi mesmo a quantidade de pais relapsos que existe no mundo. O Tiago era um menininho de 5 anos, mal educado e teimoso. Ele estava na alfabetização mas, a coordenação motora dele era péssima e ele não sabia fazer nem as vogais direito. Ele já havia passado pelo Jardim I e II e não sabia escrever as vogais... O problema era com ele? Não. O problema era com as professoras anteriores? Não. O problema era a mãe e o pai, que não davam o suporte necessário depois que ele saía da escola. O Tiago passava a maior parte do tempo na rua e não tinha horários estabelecidos. Ele poderia aprender alguma coisa assim? Nem precisa ser especialista para saber...
Eu dou aula particular para duas meninas de 6 e 7 anos. Elas se chamam Ana e Cristina. São crianças absurdamente inteligentes para a idade e Maria Theresa me surpreende a cada vez que eu converso com ela. Essa menina tem um vocabulário bastante complexo para a idade dela. Conversa coisas comigo que muita gente adulta não fala, porque não tem conhecimento sobre o assunto. Cristina é uma artista. Ela desenha maravilhosamente bem, escreve histórias absurdamente criativas, letras de música, poemas... As notas dela são as melhores e não é pelo meu trabalho, é exclusivamente por ela.
Essa menininha linda e esperta vai poder ser o que quiser na vida (embora ela já tenha decidido ser florista e até já me perguntou qual a cor da pedra do anel de formatura...). Ela tanto poderá ser uma escritora famosa, compositora, pintora de quadros ou mesmo uma ótima advogada ou executiva que toma grandes decisões. Mas a mãe dela sabe de tudo isso? Não...
Os pais são separados e ela mora com a mãe. Ela trabalha o dia todo e quando chega em casa, se tranca no quarto, pede que as crianças façam silêncio absoluto e vai dormir até a hora de sair de novo.
Ela nunca vai saber o quanto as filhas são especiais... Ela nunca vai saber do talento de Cristina e eu tenho medo de que esse talento, desapareça com o tempo. Porque é isso que vai acontecer quando ela se der conta de que a mãe dela não dá a mínima...
São crianças carentes de atenção e eu percebi isso logo na segunda semana, quando Cristina me disse que eu já era como se fosse da família, quando nós tivemos dificuldade para responder uma questão em que pedia a ajuda de um parente. E percebo isso também quando ela corre para me abraçar, quando eu vou embora e diz:
- Tia, vai chover... É melhor tu ficar aqui... ou prefere pegar uma gripe?
E quando eu digo que vou mesmo assim...
- Mas se chover tu volta, né? Volta na hora, viu tia? Tu promete que volta? Tu vai se molhar...
Quando se decide ter um filho, é preciso ter conciência de todas as responsabilidades que ele traz e querer essas responsabilidades. Quando se tem um filho, é para se curtir isso... Cada momento, cada sorriso, cada desenho... Não deve ser encarado como um dever trabalhoso e chato ou uma forma de dar satisfação para a sociedade só pelo fato de ter se casado.
Os pais devem educar seus filhos e não pagar outras pessoas para fazerem isso por eles. Essas crianças precisam disso. O que vai ser desses indivíduos quando eles crescerem? Que espécies de adultos eles serão? A resposta que eu tenho aqui não é animadora...
Nos dias de hoje, você só tem filhos se quiser e, é por isso mesmo, que ser pai ou mãe deixou há muito tempo de ser uma obrigação como que para perpetuar a espécie ou coisa do tipo. Por isso, deve ser prazeroso, sublime, único e mágico. Quando decidir ser pai ou mãe, saiba do verdadeiro significado dessas palavras e dê ao mundo, pessoas de caráter e com valores, porque elas é que vão levá-lo adiante.
É isso aí!!









5 comentários:
Lanussa, eu sou amigo do Manuelzinho e acompanho sempre o blog dele, e o seu também (dica do Manoel). Ele me falou que você seria colunista do blog dele e eu achei o máximo. Aí, logo na sua primeira postagem, um texto que me abriu muito a mente. É que estou me preparando pra ser pai pela primeiara vez e isso ainda é muito estranho pra mim. Dúvidas surgem a todo momento em minha cabeça, até pelo fato de eu não ter sido criado pelo meu pai, somente por minha mãe que teve que exercer as duas funções ao mesmo tempo. Mas sempre sentí falta de meu pai e não quero que meu filho sinta isso. Seu artigo é, sem sombra de dúvidas, uma lição muito importante para quem é ou quem vai ser pai.
Parabéns!!!
O texto da Lanussa é uma delícia de se ler por dois motivos:
1) o conteúdo trata de um tema muito instigante sobre o papel dos pais na sociedade contemporânea
2) sua linguagem simples e coloquial prende o leitor até o final
Parabéns Lanussa, gostei de seu texto. Você tem futuro como professora e, por que não, como escritora. Vá em frente
Adilson, obrigada pelas palavras... Pra mim, é uma coisa até meio estranha, porque, na verdade eu nem sou mãe. Mas, por ser filha, eu me dei esse direito de dar minha opinião. Ser pai deve dar medo e insegurança mesmo, eu mesma já tenho isso sem nem ter idéia de quando vou ter um filho. Mas o que eu acho é o seginte: se você curtir esse negócio de ser pai e mostrar isso pro seu filho, tudo vai correr bem e essa criança vai acabar passando isso adiante, quando for um adulto também. Parabéns pelo filho que vem aí...
Abraços.
Etevaldo... professora é mais uma fase do que vocação. Agora... se você tem um pouco de sensibilidade e paciência, pode fazer qualquer coisa. A minha formação, na verdade, é jornalismo mas, a minha paixão, acho que ainda não é... rsrs.
Obrigada pelo comentário e, volte sempre!!
Parabéns pelo seu primeiro post neste blog minha amiga, continue assim coerente com o que diz e a cada nova mensagem conquistará um novo leitor.
Concordo com tudo o que disse sobre a falta de atenção da maioria dos pais para com seus rebentos. Muito Bom o seu texto!
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